O que acontece ao metabolismo enquanto dormimos?
Enquanto dormimos, o corpo abranda — mas o metabolismo não para.
Continuamos a gastar energia para manter o coração a bater, respirar, regular a temperatura corporal e sustentar a atividade do cérebro e dos restantes órgãos. Ao mesmo tempo, o corpo entra num período com características metabólicas próprias: passamos várias horas sem comer, alternamos entre diferentes fases do sono e várias hormonas seguem ritmos específicos ao longo da noite.
Dormir é, por isso, também um processo metabólico.
E aquilo que acontece durante essas horas pode influenciar a forma como regulamos a glicose, utilizamos energia e sentimos fome no dia seguinte.
O metabolismo não “desliga” quando dormimos
Metabolismo é o conjunto de processos através dos quais o organismo obtém, transforma e utiliza energia.
Grande parte da energia que gastamos diariamente não resulta do exercício. É necessária simplesmente para nos manter vivos — e essa necessidade continua enquanto dormimos.
O gasto energético durante o sono tende, contudo, a ser inferior ao observado quando estamos acordados em repouso. Isso faz sentido: estamos imóveis e vários processos fisiológicos alteram-se durante a noite.
Mas o metabolismo também não permanece constante ao longo de todo o sono.
O cérebro e o organismo atravessam diferentes fases — incluindo sono NREM e REM — associadas a alterações na atividade cerebral, sistema nervoso autónomo, frequência cardíaca, respiração e utilização de energia.
Ou seja, dormir não corresponde a oito horas de metabolismo em “modo mínimo”. É um estado fisiológico dinâmico.
Durante a noite, mudamos gradualmente de combustível
Depois de uma refeição, a glicose proveniente dos alimentos constitui uma importante fonte de energia e a insulina ajuda a direcioná-la para os tecidos e para armazenamento.
À medida que passam várias horas sem comer, este contexto começa a mudar.
Os níveis de insulina tendem a diminuir e o organismo passa progressivamente a depender mais das suas reservas energéticas. O fígado ajuda a manter a glicemia através da libertação de glicose armazenada sob a forma de glicogénio e da produção de nova glicose.
Ao mesmo tempo, aumenta a disponibilidade de ácidos gordos provenientes do tecido adiposo, que podem ser utilizados por vários tecidos como fonte de energia.
Isto faz parte da nossa flexibilidade metabólica: a capacidade de ajustar a utilização dos diferentes combustíveis de acordo com a sua disponibilidade e com as necessidades do organismo.
Não significa que durante o sono deixemos simplesmente de utilizar glicose e passemos a “queimar gordura”. As diferentes fontes de energia coexistem, e a proporção em que são utilizadas varia ao longo da noite e entre tecidos.
O cérebro continua muito ativo
O cérebro representa uma pequena fração do peso corporal, mas tem necessidades energéticas elevadas.
Durante o sono, a sua atividade muda — não desaparece.
No sono NREM profundo, por exemplo, a atividade cerebral e o metabolismo da glicose tendem a diminuir em várias regiões. Já durante o sono REM, associado aos sonhos mais vívidos, a atividade de determinadas áreas cerebrais volta a aumentar e pode aproximar-se da observada durante a vigília.
Isto ajuda a explicar por que motivo o gasto energético não é exatamente igual em todas as fases do sono.
Enquanto dormimos, o cérebro está também envolvido em processos essenciais relacionados com a consolidação da memória, aprendizagem e regulação de múltiplas funções fisiológicas.
Dormir é, portanto, muito diferente de simplesmente “não fazer nada”.
As hormonas também seguem o relógio
A noite é marcada por alterações hormonais importantes — mas há uma distinção essencial: nem todas acontecem porque estamos a dormir.
Algumas dependem diretamente do sono. Outras seguem sobretudo o nosso ritmo circadiano, o relógio biológico interno que organiza numerosos processos ao longo das aproximadamente 24 horas do dia.
A melatonina, por exemplo, aumenta à noite em resposta ao relógio circadiano e à ausência de luz, ajudando a sinalizar ao organismo que chegou o período biológico de repouso.
A hormona do crescimento apresenta normalmente um importante pico associado ao início do sono, sobretudo durante o sono profundo. Entre as suas várias funções, participa na regulação do metabolismo e na manutenção e reparação dos tecidos.
Já o cortisol tende a atingir os seus valores mais baixos no início da noite e começa a aumentar nas horas que antecedem o despertar, preparando o organismo para o período de atividade.
Por isso, metabolismo, sono e relógio circadiano estão profundamente interligados.
E o que acontece à glicose enquanto dormimos?
Mesmo passando várias horas sem comer, a glicemia precisa de permanecer dentro de limites relativamente estreitos.
O fígado desempenha aqui um papel central, libertando glicose para a circulação quando necessário.
Mas há uma particularidade interessante: a forma como o organismo responde à glicose não é igual durante todo o dia.
A sensibilidade à insulina e a tolerância à glicose apresentam ritmos diários e tendem a ser piores durante a noite biológica do que durante o dia. Além disso, durante determinadas fases do sono ocorrem alterações na utilização da glicose e na regulação hormonal.
É uma das razões pelas quais o horário das refeições, o relógio circadiano e o sono são hoje estudados em conjunto na investigação sobre saúde metabólica.
Isto não significa que comer depois de determinada hora “engorde automaticamente”. O contexto é muito mais complexo. Mas mostra que o metabolismo também tem um relógio.
Dormir mal pode alterar o metabolismo no dia seguinte
Talvez uma das descobertas mais importantes nesta área seja precisamente aquilo que acontece quando o sono é insuficiente.
Estudos experimentais em que participantes saudáveis dormiram menos durante vários dias encontraram reduções na sensibilidade à insulina e alterações no metabolismo da glicose.
Num estudo clássico, Spiegel et al. (1999) restringiram o sono de homens jovens saudáveis a quatro horas por noite durante seis noites e observaram uma deterioração da tolerância à glicose e alterações endócrinas. Estudos posteriores reforçaram a relação entre restrição do sono e redução da sensibilidade à insulina.
Isto não significa que uma única noite mal dormida provoque diabetes.
Significa que o sono participa na regulação metabólica e que a privação repetida pode alterar processos envolvidos no controlo da glicose.
Dormir pouco também pode alterar a sensação de fome
O impacto de uma noite curta pode tornar-se evidente antes mesmo de pensarmos na glicemia: podemos sentir mais fome.
A restrição do sono tem sido associada a alterações na regulação do apetite e, em estudos controlados, a um maior consumo energético.
Mas a explicação é mais complexa do que a popular ideia de que “dormir pouco aumenta a grelina e diminui a leptina”. Os resultados hormonais não são totalmente consistentes entre estudos.
Há outros fatores envolvidos.
Quando permanecemos acordados durante mais horas, temos simplesmente mais oportunidades para comer. A privação de sono também parece aumentar a recompensa associada a determinados alimentos e pode alterar a tomada de decisão alimentar.
Um ensaio clínico publicado por Tasali et al. (2022) demonstrou o fenómeno pelo ângulo oposto: adultos com excesso de peso que habitualmente dormiam menos de 6,5 horas e conseguiram aumentar a duração do sono em cerca de 1,2 horas apresentaram uma redução média da ingestão energética diária, sem receberem instruções para alterar a alimentação ou a atividade física.
Ou seja, sono e alimentação influenciam-se mutuamente de formas que vão além da força de vontade.
Dormir mais acelera o metabolismo?
Não exatamente.
Esta é uma distinção importante.
Os benefícios metabólicos de dormir adequadamente não resultam simplesmente de “queimar mais calorias” durante o sono.
Dormir não é uma estratégia para aumentar diretamente o gasto energético. O seu valor está sobretudo em permitir que sistemas envolvidos na regulação da glicose, apetite, hormonas, recuperação e ritmos circadianos funcionem adequadamente.
Por isso, pensar no sono apenas através das calorias gastas durante a noite é perder grande parte daquilo que o torna metabolicamente importante.
O metabolismo trabalha enquanto descansamos
Durante o sono, o organismo continua a gerir energia, alternar a utilização de combustíveis, manter a glicemia e coordenar sinais hormonais com o nosso relógio biológico.
E aquilo que acontece à noite não fica necessariamente confinado à noite.
A qualidade e duração do sono podem influenciar a forma como respondemos à glicose, regulamos o apetite e fazemos escolhas alimentares no dia seguinte.
É mais uma razão para deixar de pensar no sono como o período em que “não estamos a fazer nada”.
Do ponto de vista metabólico, dormir não é uma pausa no funcionamento do organismo. É uma parte desse funcionamento.
Fontes e referências
Spiegel, K., Leproult, R., & Van Cauter, E. (1999). Impact of sleep debt on metabolic and endocrine function. The Lancet, 354(9188), 1435–1439. PubMed
Donga, E., et al. (2010). A single night of partial sleep deprivation induces insulin resistance in multiple metabolic pathways in healthy subjects. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 95(6), 2963–2968. PubMed
St-Onge, M. P., et al. (2016). Sleep duration and quality: impact on lifestyle behaviors and cardiometabolic health. Circulation, 134(18), e367–e386. PubMed
Depner, C. M., Stothard, E. R., & Wright, K. P. Jr. (2014). Metabolic consequences of sleep and circadian disorders. Current Diabetes Reports, 14, 507. PubMed
Tasali, E., et al. (2022). Effect of Sleep Extension on Objectively Assessed Energy Intake Among Adults With Overweight in Real-life Settings: A Randomized Clinical Trial. JAMA Internal Medicine, 182(4), 365–374. PubMed
